sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

TEATRO E REVOLUÇÃO


“O homem é a única maravilha sobre a terra, todas as outras são o produto de sua imaginação, de sua inteligência, de sua vontade criadora”. A crença no ser humano e em sua capacidade de transformação, fez do autor dessa frase um dos dramaturgos mais vigorosos da história do teatro ocidental. A arte e a vida de Maksim Gorki (1868-1936) confluem para um mesmo objetivo: a profunda compreensão do homem e a certeza da possibilidade da revolução social! Respondendo às necessidades do seu tempo e ao momento de transformações que passava a Rússia, tanto no período pré-revolucionário quanto na tomada do poder e na construção do socialismo, Gorki colocou sua obra a serviço de uma causa que abraçou até o seu último dia, sem vacilar um instante sequer.

“Mais e melhor que nos livros, aprendi marxismo com Siemionov, padeiro em Kazan”. Em momento algum Gorki negou suas origens e, em momento algum, se esqueceu da fundamental importância que sua vida de dificuldades teve de determinante em seu trabalho artístico. Desde suas primeiras obras, quando já trazia consigo uma consciência política e a necessidade de participação no processo revolucionário russo, manifestou essa consciência e transformou sua literatura e seu teatro num instrumento de luta e conscientização. Preso por diversas vezes, exilado, não se deixou vergar pela força da repressão e não abandonou seu mais claro objetivo: a revolução socialista.

            “... a vida não tem nada de trágico... vai passando lenta, monótona, como um rio lamacento. E quando se vê o rio correr, os olhos vão se cansando... um tédio vai tomando conta de tudo, a cabeça vai ficando pesada e nem se tem mais vontade de saber por que é que ele corre...” A obra de Gorki, para muitos, é bastante influenciada por Tchekov, no que diz respeito à “falta” de conflitos objetivos. Mas a diferença pára por aí: Tchecov trata, sim, da decadência da burguesia, mas vê os burgueses com bastante complacência, enquanto Gorki que, em princípio, trata do mesmo assunto, tem um posicionamento crítico completamente diferente, pois em seu teatro a burguesia é tratada do ponto de vista de um marxista que luta pela sua derrota e destruição enquanto classe. Vemos, sim, o confronto da burguesia com o operariado (“Pequenos Burgueses” ou “Os Inimigos”), onde a luta de classes é o grande personagem que, mesmo sem ser citado, continua ocupando a mente dos personagens e determinando o comportamento de cada um. Ao contrário de Tchecov, era um esperançoso no destino do homem, não que Tchecov não o fosse também (ele fala muito de um tempo em que uma tempestade vai varrer tudo e que todos trabalharão), mas o era de maneira diferente. Os dois acreditavam que a sociedade podia ser transformada para melhor, mas os caminhos eram distintos. Gorki partiu para confronto direto!

            “Os pequenos burgueses encolheram, encurtaram, reduziram tudo...” Gorki descarrega todo o seu “amargor” (lembrar que Gorki, em russo, significa amargo – Máximo, o Amargo.) contra uma classe que ele considera inútil, sanguessuga do próprio homem; uma classe que está voltada o tempo todo para o seu próprio umbigo; que vive da exploração do trabalho alheio; que vive para acumular riqueza e se enterra em sua própria ambição. Ele sabe que a burguesia vai ser derrotada, o chamado “ensaio geral”, em 1905, já anunciara a tempestade que se preparava.  Em 1917, o que era apenas prognóstico, torna-se realidade e a Rússia transforma-se no primeiro país socialista. Do exílio, Gorki ajuda organizar a revolução e, em 1914, de volta para a Rússia, participa, juntamente com Lênin, do movimento de libertação do seu país e é considerado herói.

Em 1900, dezessete anos antes do triunfo da revolução, Gorki denunciava a burguesia em “Pequenos Burgueses” e, no final da peça, Teteriev, o bêbedo mais sóbrio e consciente da história do teatro, não pesa suas palavras no momento em que se volta contra o pequeno burguês Bessemenov que, desesperado com a saída do filho Piotr de casa, expulsa todos que o cercam: “Não grite, velho... Você não pode mandar embora todos os que te atacam. Não se preocupe, o seu filho volta! (...) Quando você estiver morto, vai reformar alguma coisa deste estábulo... vai mudar os móveis de lugar... e vai viver como você vive agora... tranqüilo, razoável, acomodado... (...) Vai mudar os móveis de lugar, e vai viver com a consciência tranqüila de que cumpriu plenamente o seu dever perante a vida e os homens... É completamente idêntico a você! (...) Completamente idêntico, covarde e bobo! (...) E será, com o tempo, tão avarento como você. Tão seguro de si mesmo, como você... tão mau, como você... E um dia... será até infeliz como você é agora!... A vida avança, velho, e quem não avança ao lado dela, fica só! Como você...”

            Em 1934, Gorki participa ativamente do Primeiro Congresso dos Escritores Soviéticos, com atuação destacada. Defende o realismo socialista que preconizava muito mais o caráter ético do que o estético na obra de arte. Podemos discutir (e devemos!) os rumos tomados pelo realismo socialista durante o período stalinista, que pode ser entendido por alguns como a estética do Estado sobre a liberdade do artista, a obra de arte atrelada irreversivelmente ao pensamento do Estado. Obviamente, não cabe aqui uma discussão mais aprofundada sobre essa questão extremamente polêmica, mas julgo necessário acentuar alguns pontos históricos para um melhor entendimento do teatro em Gorki: o romantismo foi um movimento de afirmação burguesa contra o classicismo aristocrático; o realismo socialista pretende a afirmação do trabalho sobre o capital. A nova sociedade – a sociedade socialista – necessitava de uma arte que afirmasse seus valores humanos trazendo para a cena não mais a particularização do individuo, mas questões maiores da sociedade; não o herói idealizado, mas o homem atuante no seu meio, compromissado com o seu tempo e a sua realidade, cujas preocupações se sobreponham às preocupações dos “pequenos burgueses” denunciados por Gorki. A história é dinâmica e o próprio Marx já levantara uma questão fundamental: “Será que o modo de investigação não deve mudar com o objeto?”.

Gorki, num pronunciamento histórico, defende e esclarece que o novo realismo deveria refletir os anseios e necessidades do homem que vive numa nova sociedade, inspirada pela igualdade social e movida pelo modo de produção socialista: “Sem querer negar a grande obra do realismo crítico do século XIX, reconhecendo todo o valor de seus resultados formais, devemos compreender que este realismo nos serve unicamente para mostrar o passado, para lutar contra ele e para extirpá-lo. Porém, este realismo não nos serve mais (...) O realismo socialista afirma a existência como ação e estabelece que seu objetivo principal é o desenvolvimento das mais preciosas qualidades para se alcançar a vitória do homem sobre as leis da natureza, para alcançar a felicidade de viver sobre uma terra que ele, respondendo ao incessante aumento de suas exigências, quer trabalhar e transformar em uma esplêndida casa para toda a humanidade...”
            É preciso entender, porém, que todo o trabalho literário de Gorki, seja no teatro, no romance, contos ou autobiografias, já apontava, desde suas primeiras obras no início do século, e continuaram apontando sempre rumo a uma sociedade mais justa. Apesar do “amargo” de suas palavras, sua obra (talvez, com única exceção para “Ralé”, quando vai tratar de “criaturas que um dia foram homens”) é uma obra esperançosa, positiva, que mostra sempre homens lutando contra a opressão e aspirando dias melhores. Os princípios do realismo socialista já estavam presentes em “Pequenos Burgueses” (teatro) ou em “Mãe”, 1907 (romance transformado em ópera na URSS e adaptado para o teatro por Bertolt Brecht), antecipando, de certa forma, toda discussão do Primeiro Congresso.  

Gorki viveu apenas dois anos após a “decretação” do realismo socialista. Sua obra influenciou decisivamente os autores de sua época e aqueles que viveram sob a égide da estética socialista. Sua obra extrapola os limites meramente estéticos, pois continua absolutamente atual ainda hoje, quando já decretada a falência do modelo soviético de socialismo, o mundo se depara com as fissuras e profundas contradições do capitalismo, cada vez mais acentuadas. Sua obra vai calar fundo no coração de cada um que pensa que um mundo diferente desse que vivemos é possível, e queira lutar por ele. Como observou Cholokhov, “o humanista não é aquele que lamenta e pobre vitima e deplora a existência do crime na terra, o humanista é aquele que luta, que ajuda a desviar a mão do criminoso a impedi-lo de prejudicar”. E Gorki, com certeza, se faz presente nessa galeria de humanistas que colocaram suas próprias vidas a serviço de uma causa justa, lutando concretamente para o que ele chamou de “terceira realidade”: “Não podemos limitar-nos ao conhecimento de duas realidades apenas, a de ontem e a de hoje, na criação da qual nós participamos em certa medida. É necessário conhecer uma terceira realidade: a realidade do futuro, terceira realidade que nós devemos daqui em diante assimilar e descrever”. Assim pensava; assim o fez! E para fazer, precisou destruir e construir. Tchekov um dia afirmou que “Gorki é um destruidor que deve destruir tudo o que merece destruição. Nisso está toda sua força e é para isso que a vida o chamou.”.

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